SÉTIMA ARTE EM FRUTAL: DO AUGE À DECADÊNCIA

PRÓLOGO

Tribuna de Frutal, 1º de setembro de 1957, Número 252. Matéria escrita por Geraldo Nogueira.

Cine Canaã

É sabido que a vida dos agrupamentos humanos necessita não somente da energia construtiva de trabalho, mas também, do elemento balsâmico e salutar das diversões.

E é, pois, sem dúvida, uma das razões pelas quais não se pode, evidentemente, negar o oportunismo do empreendimento levado a efeito pela Empresa Melhoramentos de Frutal LTDA, com a construção, em nossa cidade, de um confortável, amplo e moderno cinema.

Essa esplêndida iniciativa, justo é que se diga, partiu de Otogamiz de Paula, cidadão dos mais prestantes com que conta Frutal, tendo o seu interesse concentrado todo no apelo material, permitindo-lhe o desenvolvimento rápido  (…), de maneira eloquente , a elogiável capacidade empreendedora de Otogamiz de Paula.

Mas, a concretização da ideia representada pela construção do novo cinema, ressalta-se, deve-se, igualmente a duas outras pessoas, de larga visão e inteligência clara: Jerônimo Sebastião da Silva e Homéro de Paula Gomes. Desarte, todos os sócios componentes da Empresa Melhoramentos de Frutal Ltda, trabalharam com afinco e melhor boa vontade em torno do objetivo que tinham  em mira, acelerando, dessa forma, o ritmo de desenvolvimento  de nossa vida social. Pelo oportunismo com que se houveram, aqui deixamos o nosso aplauso vibrante na brandura neste julgamento que chega a ser tanto mais eloquente por possuir, evidentemente, um cunho essencialmente popular: é a gente, o povo de Frutal que presta a Otogamiz de Paula e srs. Jerônimo Sebastião da Silva e Homéro de Paula Gomes o tributo mais sincero do seu reconhecimento e da sua (…).

(…)

Quarenta e um nomes foram então, escolhidos, para, em seguida, serem indicados, ainda pelos srs. membros da Comissão, as 10 melhores sugestões: Brasil, Inconfidência, Canaã, Caravelas, Esmeralda, Primavera, Itapoan, Marajoára, Avenida e Palácio.

Finalmente, a direção da Empresa opinou favoravelmente pelos seguintes nomes, na ordem de preferência: Canaã, Brasil e Marajoára. O vencedor do concurso foi o sr. José Alves de Oliveira, residente nesta cidade, a quem foi entregue uma permanente válida por um ano, do novo cinema, ao tempo em que duas outras permanentes, válidas por 3 meses e 1 mês foram conferidas às peaspas classificadas em 2º e 3º lugares (…) que grandes festejos assinalarão o grato acontecimento.

Nota: Onde há (…) é porque o jornal, por ser antigo, estava ilegível.

DO AUGE À DECADÊNCIA

Anos dourados. Pós segunda guerra, o mundo podia sorrir novamente. As tecnologias avançavam de maneira assustadora. Nascia o rock nos Estados Unidos, mais conhecido como Rockabilly. Elvis Presley fazia história.  Os homens com seus topetes, as mulheres com seus vestidos de bolinhas e saias que marcavam a silhueta de seu corpo, esbanjando charme.

Pelo Brasil, o Rei Roberto Carlos ia conquistando seu espaço e a bossa nova ia criando vida. Getúlio Vargas marcava a história do Brasil, seguido por JK, que prometia evoluir “50 anos em 5”. Já pelo final de seu mandato ia-se finalizando a obra que marcara sua história como presidente: “Brasília, a cidade planejada”.

Já pelos lados de Minas Gerais, mais especificamente na cidade de Frutal, na Avenida Coronel Delfino Nunes, nascia, pelas mãos do senhor Otogamiz de Paula, o que então seria fonte de diversão, cultura e entretenimento para muita gente. E foi nesse contexto, no finalzinho da década de 50 que nasceu a grande estrela de nossa matéria: O famoso Cinema Canaã.

E nasceu grandioso. Eram 750 poltronas, confortáveis e de couro, que preenchiam uma única, porém grandiosa sala que contava com aparelhos de projeção extremamente modernos para a época.  Painéis enormes e valiosíssimos, pintados com tintas a base de têmpora e clara de ovo por Bassano Vaccarini, decoravam o arrojado cinema da cidade.

Em novembro de 1958 abriu suas portas pela primeira vez. Sua estreia foi avassaladora. Cavalheiros engomados e damas com suas saias esvoaçantes e balanço gracioso em um andar ritmado dirigiam-se ao prédio de número 45 daquela avenida para prestigiar o novo cinema da cidade. O equipamento de projeção trazido diretamente da cidade de São Paulo exibia o filme “Alexandre o grande”. Eram três sessões diárias, uma matinê às 14h, e sessões noturnas às 19 e 21h. Tudo ia de vento em poupa.

Nos corredores do Canaã, podia-se encontrar a bomboniere, com seus doces e balas de encher os olhos dos amantes do cinema. Lá trabalhava, entre 1976 e 1977, Dona Mariene Rosa, 60 anos.  Ela lembra com carinho de assistir os filmes durante os intervalos do serviço. O que mais lhe marcou foi Guerra nas Estrelas. “Fecho os olhos e consigo ler os cartazes”, relembra Dona Mariene.

Sua filha, Shelyda, 36 anos, recorda com saudade quando foi pela primeira vez ao cinema, com 8 anos de idade, assistir ao filme de sucesso da Disney, “Bambi”. E lembra com emoção a primeira vez que pisou no cinema, a expectativa e o encantamento proporcionados pela sétima arte.

A magia continuava mesmo após as sessões. Os casais saiam do cinema e iam para a praça da matriz ver a fonte luminosa, comer pipoca e namorar. O romance estava em alta nas telonas e na vida real.

Eram tempos majestosos aqueles… Mas, infelizmente, o avanço grandioso das tecnologias pusera em “xeque” o cenário de muitos casais apaixonados, e o Cine Canaã fechou suas portas. Com a chegada da televisão e do vídeo K7 no Brasil, as bilheterias dos cinemas começaram a cair. Em Frutal não foi diferente, a partir de 1966 o Instituto Nacional de Cinema (INC), preocupado em estimular a produção e exibição de filmes brasileiros, cria a Lei da Obrigatoriedade de Exibição de Filmes Nacionais, que esvaziou a sala do Cine Canaã.

No fim da década de 1980, quando tudo parecia estar perdido, o empresário frutalense Hélio Santos arrendou o cinema e o reabriu. Entretanto, havia um diferencial: durante o dia o local funcionava como locadora de filmes, e durante a noite como cinema. A tentativa de conciliar duas atividades concorrentes não obteve sucesso, e novamente, após um ano, o Cine Canaã encerrou suas atividades deixando o coração dos amantes do cinema devastado.

A magia não podia acabar! Por isso, houveram tentativas de reabri-lo. Em julho de 2003, o empresário Marcelo Chainça, proprietário de cinemas da região, principalmente em São José do Rio Preto, promoveu uma nova abertura do Cine Canaã. Mas, infelizmente, não teve sucesso, e o cinema fechou suas portas para sempre em março de 2005.

Muito se falou sobre um novo retorno, porém, por falta de investimentos e por força do próprio tempo, isso não aconteceu. O palco, que já trouxe grandes nomes como Mazaroppi, Roberto Carlos e Demônios da Garoa, foi destruído, e as cadeiras, onde os apaixonados trocavam o primeiro toque das mãos e dividiam suas pipocas, foram comidas por cupins. O que não se estragou foi doado para Igrejas da cidade. O maquinário, que já projetou grandes títulos do cinema foi cedido à Casa da Criança, como ferro velho para ser reciclado. Os painéis de Bassano Vaccarini foram doados para a fundação Unesco-Hidroex para serem restaurados.

Mais recentemente, a prefeitura de Frutal juntamente com o Ministério Público, tiveram a iniciativa de tombar o prédio do cinema como patrimônio do Estado, porém, os antigos proprietários recusaram a proposta.

Da antiga estrutura só restam as paredes, que um dia tiveram lindos painéis. O telhado foi removido em razão do deterioramento, e a bilheteria foi fechada com tijolos. Se hoje o prédio passa desapercebido entre milhares de pessoas que andam apressadamente pela calçada, ou desaparece em meio aos carros que circulam na movimentada avenida da cidade, permanece na memória daqueles que tiveram o privilégio de frequentar suas sessões. Permanecem o gosto do beijo, o cheiro da pipoca, a ansiedade das filas, os risos e as lágrimas divididas. Permanece a emoção, e a magia do cinema.

 

Faixada atual do Cine Canã - Foto: Murilo Carvalho

Faixada atual do Cine Canã – Foto: Murilo Carvalho

EPÍLOGO

O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Entre idas e vindas, o Cine Canaã conquistou seu espaço na vida dos frutalenses, despertou a admiração de várias gerações pela sétima arte e deixou um importante legado para sociedade.

Lausamar Humberto, advogado, jornalista e professor universitário conta que se encontrou no mundo cinematográfico: “A minha paixão pelo cinema a princípio se deu pela leitura. Lia muito jornal e sempre lia a revista sete. Os filmes demoravam um bom tempo para chegar até o cinema. Nem sempre eu tinha condições financeiras para ir e só tive televisão em casa com 17 anos.  A minha formação emocional e intelectual se deu muito pelo cinema. Eu tive contato com alguns temas e ideias pelo cinema. Eu acho que é uma área do conhecimento que as vezes as pessoas tratam como um simples entretenimento e ele é muito mais do que isso”.

Ainda sobre o Cine Canaã, o professor conta que certa vez levou seu irmão de 9 anos para assistir Noite dos Mortos Vivos, e com menos de vinte minutos de filme teve de deixar o cinema. Quando perguntado porquê estava deixando a sessão, respondeu que seu irmão estava muito assustado, mas na verdade ele é quem estava morrendo de medo.

Conta ainda que o filme que mais o marcou foi um filme dos Trapalhões.  A fila estava gigante e o lugar tomado de pessoas, alguns sentados pelo corredor. Uma experiência única para ele.

Lausamar acredita que uma das principais razões para o fechamento do cinema foi a defasagem do equipamento e o gigantismo da sala, que comportava 750 pessoas, enquanto as salas de hoje comportam apenas 200.

Mas, como nos filmes, a paixão sobreviveu a distância e ao tempo. A paixão pelo cinema é tanta que Lausamar não se contentou em ser apenas um mero expectador. O professor desenvolve um projeto chamado Cine UEMG, que promove sessões de cinema gratuitas aos fins de semana no anfiteatro da instituição.

A Prefeitura de Frutal desenvolve também um projeto de Cinema de Rua que exibe filmes gratuitamente em diversos locais da cidade, principalmente em bairros de baixa renda.

O Cine Canaã deixou em Frutal um importante legado. Mesmo desativado a quase dez anos, contribuiu bastante para a cultura local, e inseriu de vez o cinema na vida dos frutalenses, que aprenderam a admirar a sétima arte.

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